segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Cinema do Mundo

Os últimos filmes que vi não seguem a fórmula comercial de Hollywood, não têm a preocupação de agradar ao público em geral pois apelam a uma estética alternativa, por vezes abusando do bizarro, de sexo ou violência, com personagens estranhos e argumentos bastante originais:



Elle, de Paul Verhoeven – França, Alemanha, Bélgica (2016): este filme vive claramente do desempenho da actriz principal, Isabelle Hupert, por muito que se reconheça a força idiossincrática do realizador de “Basic Instinct” e representa uma personagem em martírio ou em punição, com disponibilidade para o sofrimento (já vista anteriormente em “La Pianiste” filme de 2001 de Michael Haneke mas muito diferente do excelente filme do ano seguinte “8 Femmes”). A sua personagem, gestora de uma empresa de videojogos, aproxima-se surpreendentemente de uma humilhação masoquista num ambiente pouco convencional: tem um pai preso (que se suicida quando sabe que ela pretende visitá-lo); a mãe anda metida com um rapazola e a sua saúde vai-se deteriorando; o filho está prestes a dar-lhe um neto mas de raça negra; ela própria encontra-se divorciada e com uma vida íntima atribulada que inclui masturbação e figuras natalícias e envolvimento com o marido da melhor amiga. Para complicar ainda mais, é assaltada e violada na sua própria casa mas tem uma estranha reacção… Hupert consegue uma singular e quase paradoxal mescla de intensidade e apatia, quando não mesmo abandono, visível num rosto que é capaz de ter uma expressão fulminante com um mínimo de recursos fisionómicos, a jogar às escondidas psicológicas com o espectador. Brilhante!

Les Innocents, de Anne Fontaine – Polónia, França (2016): este filme passa-se num convento logo após o fim da II Guerra Mundial, é inspirado na história real vivida por uma jovem médica da Cruz Vermelha Francesa, Mathilde Beaulieu (a encantadora Lou de Laâge) que é chamada por uma freira de um convento de beneditinas onde uma rapariga está a dar à luz. Pensa tratar-se de uma jovem da vila que lá foi acolhida, mas acaba por lhe ser revelado que várias das irmãs foram violadas por soldados soviéticos, ficaram grávidas e não irão abortar. As freiras pedem-lhe encarecidamente, ajuda e sigilo, perdidas entre o pecado, a culpa, a sua fé e a atitude de encobrimento da Madre Superior. Matilde é comunista, filha de comunistas e ateia, e assim confronta-se com o mundo da fé, da reclusão, da devoção total e do perdão que é o das freiras aumentando a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas. A virtude deste filme, interpretado e realizado sempre por mulheres, e que também me fez recordar o filme polaco “Ida”, de 2013, realizado por Paweł Pawlikowski, é a de levar o espectador a uma reflexão profunda sobre os limites da religião.

Miss Violence
, de Alexandros Avranas – Grécia (2013): estranhamente esta película só estreou nos cinemas portugueses em Novembro de 2016. Trata-se de mais um filme perturbador, gerador de emoções e de enorme violência, apesar de se tratar de violência mais sugerida do que visível (a este nível recordou-me outro filme grego também memorável de 2009: “Kynodontas”, de Yorgos Lanthimos). Nos primeiros trinta ou quarenta minutos somos confrontados com cenas de aparente normalidade: uma simplicíssima festa de anos, em que só irmãos, mãe e avós de uma menina angelical de 11 anos estão presentes até que essa mesma menina de rosto apático esgueira-se pela varanda da sala, atira-se e morre estatelada no chão da rua! Ao acompanhar o luto da família e o seu quotidiano, e à medida que vamos adivinhando o que está a acontecer com aquela família, é impossível não ficarmos revoltados e indignados e às tantas parece que levamos com um murro no estômago. Claro que isto só acontecerá a quem conseguir ver o filme até ao fim…



Saul Fia, de László Nemes – Hungria (2015): mais uma história terrível ainda com a II Guerra Mundial como pano de fundo, que acompanha constantemente o dia-a-dia de um Sonderkommando de um campo de concentração, ou seja, de um prisioneiro (Saul) condenado pelos alemães a cumprir a horrível tarefa de ajudar os deportados escolhidos para morrer a despirem-se e a entrarem nas câmaras de gás, depois levar todos os cadáveres, corpos misturados que se tinham debatido, para os fornos crematórios. A proposta estética aplicada com rigor pelo realizador baseia-se quase sempre no rosto de Saul, insensível e impiedoso, ou naquilo que ele está a ver, ou seja, os horrores da guerra são apresentados sob o olhar de quem a vivencia, dia após dia, o que é ainda impulsionado pelo formato do ecrã reduzido, que amplia a sensação de aprisionamento naquela realidade. Trata-se de uma experimentação visual que nos induz toda uma série de sentimentos negativos através do simples poder da sugestão, sem imagens explicitas de carnificina. A primeira vez em que ouvi o termo associado a estes “comandos especiais”, que também eram exterminados ao fim de algum tempo de trabalho, foi com a leitura de “Sonderkommando” de Shlomo Venezia e mais tarde “A Zona de Interesse” de Martin Amis e também naquele que provavelmente será o documentário mais completo sobre o holocausto, realizado por Claude Lanzmann em 2005, “Shoah”, com uma duração superior a 9 horas.


El Clan, de Pablo Trapero – Argentina, Espanha (2015): baseia-se na história verídica da família Puccio que, no começo da década de 1980, sequestrava, escondia na própria casa e, após pedir elevados resgates, matava os seus reféns em Buenos Aires. O patriarca e mentor dos crimes desta família aparentemente pacata, Arquímedes Puccio (representado por Guillermo Francella, já nosso conhecido do excelente filme argentino de 2009, “El Secreto de Sus Ojos”), era um agente do serviço de inteligência da mais recente ditadura argentina (1976 — 1983), que se aproveitava da experiência adquirida nas sombras do poder e da influência que os militares ainda gozavam nos primeiros tempos de democracia para praticar determinados crimes. Apesar de no filme a conclusão óbvia é que o crime não compensa e o sonho de uma vida luxuosa terminar para toda a família, Arquímedes nunca chega a confessar os seus crimes.

Land Of Mine, de Martin Zandvliet – Dinamarca, Alemanha (2015): mais uma visão diferente da II Guerra Mundial, que nos conta a história de um grupo de jovens prisioneiros de guerra nazis que com as próprias mãos foram forçados a retirar 2 milhões de minas terrestres das praias dinamarquesas. Trata-se de olhar sobre a crueldade e o ódio pós-guerra a todos os alemães, que atingiu o seu auge após a morte de Hitler e com as revelações dos campos de extermínio. Logo na primeira cena, um soldado alemão que carrega uma bandeira dinamarquesa é violentamente atacado. É um filme simples, realista, triste, com excelentes protagonistas e um cenário que permite obter uma fotografia impecável.



Julieta, de Pedro Almodóvar – Espanha (2016): apesar de Almodóvar já ter feito melhor, gostei bastante deste seu último filme. Tem um óptimo guião, uma história bem contada (a partir de três contos de “Fugas”, antologia da Nobel da Literatura Alice Munro), emocionalmente fortíssimo sem ser lamechas, direcção de actores e interpretação impecáveis e uma estética visual e musical superiores. Julieta é uma mulher de meia-idade que está prestes a mudar-se de Madrid para Portugal, para acompanhar o seu namorado Lorenzo mas tem um encontro fortuito na rua com Beatriz, uma antiga amiga de sua filha Antía, o que a leva a desistir daquela mudança. Resolve então voltar para o antigo prédio em que vivia, também em Madrid, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. Aquilo que menos gostei foi do final do filme pois deixou-me uma sensação de ter ficado incompleto.

Califórnia, de Marina Person – Brasil (2015): filme sobre adolescentes e as suas dores de crescimento, bem patentes logo nos primeiros segundos do filme. Decorre no Brasil no início dos anos 1980 e conta a história de Estela, uma adolescente de 14 anos que vive os conflitos típicos da idade, de identidade, amizade e amor (é vista a ler “Sexus” de Henry Miller) e que idolatra o seu tio Carlos, jornalista musical que vive nos Estados Unidos, mas também seu conselheiro e mentor. Por isso faz um acordo com os seus pais: em vez da fazerem uma festa de aniversário pelos seus 15 anos, quer fazer uma viagem aos Estados Unidos. Mas os sonhos dela caem por terra quando Carlos, doente e debilitado, opta por voltar para o Brasil… O filme é um autêntico hino aos anos 80 e a toda a sua identidade cultural: a MTV começa a transmitir videoclips 24 horas por dia; no mural do quarto de Estela há posters dos Beatles e de David Bowie (que ela idolatra) e um cartaz do filme “Blood Simple” de 1984 dos irmãos Coen; não faltam os gravadores de cassetes da época e as discotecas com bolas de espelhos; numa visita a uma loja de discos ouve-se, por exemplo, The Cure, New Order, The Smiths e ao longo do filme Joy Division, Siouxsie & The Banshees, Cocteau Twins e os brasileiros Kid Abelha. O tio Carlos trouxe-lhe dos Estados Unidos uma t-shirt do Bowie e um álbum dos Echo & The Bunnymen, “Ocean Rain” (recordo-me que quando este disco saiu vinha acompanhado da frase “o melhor álbum de sempre”) e conta-lhe pormenores de uma entrevista que fez a Michael Stipe (dos R.E.M.). Para reforçar o sentimento nostálgico do filme, também aqui a personagem principal tem um amigo que lhe grava cassetes, imita o penteado e o eyeliner de Robert Smith e até lhe empresta “O Estrangeiro” de Albert Camus (livro que inspirou a canção “Killing An Arab” dos The Cure). Enfim, um filme essencialmente para revivalistas!


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