quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sons de Outono



- Portugal. The ManFeel It Still
- The XXLips
- Laura MarlingNothing Not Nearly
- MGMTLittle Dark Age
- Father John MistySo I'm Growing Old On Magic Mountain
- Marika HackmanBoyfriend
- Cigarettes After SexOpera House
- SuperorganismSomething For Your M.I.N.D.
- Mark LaneganEmperor
- Courtney Barnett & Kurt VileFear Is Like A Forest
- Young FathersOnly God Knows
- Noel Gallagher's High Flying BirdsIt’s A Beautiful World
- GoldfrappAnymore
- The War On DrugsThinking Of A Place
- LCD SoundsystemCall The Police
- ∆ (alt-j) 3WW
- Sampha(No One Knows Me) Like The Piano
- Palo WavesThere’s A Honey
- Mazgani The Poet's Death
- The Legendary TigermanFix Of Rock'n'Roll


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Irène Némirovski - Suite Francesa


A “Suite Francesa” foi escrito em segredo, quando os nazis ocuparam a França em plena Segunda Guerra Mundial. Nunca foi acabado pois a autora de origem judia, Irène Némirovsky, foi enviada para Auschwitz em 1942, onde foi morta à chegada. O manuscrito permaneceu ignorado durante quase sessenta anos, até ser redescoberto pela filha e acabou por ser publicado em 2004.

Irène Némirovsky pretendia criar um épico sobre o Holocausto. A obra seria composta por cinco volumes na sua totalidade (concebido segundo uma estrutura inspirada na quinta sinfonia de Beethoven). Concluiria apenas os dois primeiros, deixando notas manuscritas, contendo as linhas mestras para a compilação de um terceiro, pouco antes de ser deportada para Auschwitz.

A primeira parte do romance, intitulada “Tempestade em Junho” retrata, com uma lucidez espantosa, o panorama da desagregação económica francesa, como resultado da Grande Depressão dos anos 30, à escala global - uma situação que foi aproveitada pela demagogia ideológica subjacente à propaganda do partido nazi, o qual encontrou nessa fragilidade a oportunidade perfeita para dar largas aos seus objectivos expansionistas.

O local da acção, nesta primeira parte, situa-se na cidade de Paris, logo após ser declarada a guerra. Irène Némirovsky, descreve-nos alguns quadros do quotidiano doméstico em diversos lares – desde o abastado banqueiro Corbin, ao já idoso casal de classe média (funcionários bancários), os Michaud, passando pela família Péricand, situada no limar que separa a classe média-alta da alta-baixa e pelo pretensioso escritor de massas especializado em folhetins, Gabriel Corte.

A maior parte das personagens de Némirovsky são, nesta primeira parte, não exactamente más, mas de carácter medíocre. A autora critica severamente a atitude hipócrita (colaboradores e delatores) da maior parte da população francesa.

(Fotografia de Irène Némirovsky, aos 25 anos de idade, em 1928)

Na segunda parte, “Dolce”, a história desenrola-se essencialmente em duas casas: a casa dos Angellier e a casa dos Labarie. Lucille Angellier é uma mulher que espera notícias do seu marido (a cumprir serviço militar), enquanto habita com a senhora Angellier, a sua sogra, uma mulher fria, algo austera de sentimentos, pronta a impor as suas decisões e opiniões e que procura que Lucille aprenda a gerir os negócios da família, tais como recolher as verbas aos rendeiros que trabalham nas terras possuídas pelos Angellier. Tudo muda no quotidiano de Lucille quando os alemães invadem a França, em particular o território de Bussy. Os aviões começam por bombardear o comboio e o espaço campestre, com o pânico a ser geral. Chegam tanques, soldados enfileirados, quase todos frios e unidimensionais. A excepção é um alemão sensível, culto e educado – Bruno von Falk – que é utilizado como contraponto face a outras figuras do exército ocupante como, por exemplo, Kurt Bonnet, o tenente intérprete do Kommandantur fascinado por pintura flamenga.

Aquele facto não implica necessariamente que a autora simpatize com os alemães. Na realidade, na altura em que Némirovsky escreve estes capítulos, as pessoas ainda não têm consciência do perigo do nazismo, nem estão na posse da totalidade dos acontecimentos a nível global.

Esta edição de “Suite Francesa” (nome da partitura dedicada a Lucille e elaborada por Bruno, um compositor antes de ser militar) termina com as anotações da autora, para os volumes seguintes, seguida da troca de correspondência entre os membros da família e os amigos da escritora no sentido de mover influências para descobrir o seu paradeiro após ser deportada e proceder à sua libertação. Informação que só foi conseguida no pós-guerra, ao examinarem os registos do campo de concentração onde deu entrada.



O filme que adoptou esta obra ao cinema foca-se essencialmente na segunda parte do livro (“Dolce”) e na história de Lucille, com o marido ausente em combate e que se apaixona pelo “bom nazi” com quem é obrigada a partilhar a casa.

O elenco é admirável (especialmente Michelle Williams, Kristin Scott Thomas e Matthias Schoenaerts) mas, relativamente ao livro, o retrato não é tão realista, muitas personagens são esquecidas e a narração serve apenas para procurar o impacto emocional que as imagens não chegam a alcançar.

Sabendo tratar-se de uma forma viável de comercialização, o uso da língua inglesa em personagens francesas atribui o seu “quê” de artificialismo para os tempos que decorrem, enquanto o alemão é imaculado (involuntariamente dá a entender que é uma língua enraizada no Mal).

Trata-se claramente de uma situação em que o filme, que conta com a realização insípida de Saul Dibb, não consegue acompanhar a complexidade da obra original apesar dos valores de produção serem elevados.


domingo, 15 de outubro de 2017

Jay-Jay Johanson, Theatro Circo, 14 de Outubro de 2017

O sueco Jay-Jay Johanson anda a festejar os 20 anos decorridos desde a sua estreia com o inebriante álbum “Whiskey”. Assim, não é de estranhar que na setlist deste espectáculo tenham prevalecido os temas deste disco, iniciando o alinhamento precisamente com “It Hurts Me So”, “So Tell The Girls That I’m Back In Town”, “The Girl I Love Is Gone”, “I Fantasize Of You” e a delicada “I’m Older Now”, que começou com Jay-Jay a cantar a capella, enquanto o público ouvia com um silêncio respeitoso. Fazendo acompanhar-se pelo baterista e teclista habituais, tendo-se este último, Erik Jansson, ouvido nos coros em “Mana Mana Mana Mana”. As versões soaram exactamente iguais aos originais: não houve qualquer tentativa de actualização. Passados 20 anos, este anti-herói romântico ainda mantém a elegância e a delicadeza na sua música, misturando batidas soturnas, sonoridades jazzy e uma voz suave.


Durante uma hora e quarenta e cinco minutos e mais de duas dezenas de temas, em formato best of e sempre acompanhados por um filme-concerto (sem qualquer sequência lógica com o que estava a ser cantado!), Jay-Jay com o seu timbre tão característico, manteve toda a essência da sua música: uma facilidade inata para as melodias e uma voz e ritmos que elevam as suas canções do subtil ao sublime. As suas oscilações entre o trip-hop e a electrónica, entre o jazz e a pop possibilitaram incursões por quase todos os seus 11 álbuns. Do mais recente, “Bury The Hatchet” ouviram-se “Paranoid”, “Bury The Hatchet” e a belíssima “You’ll Miss Me When I’m Gone”. Para deixar brilhar os dois companheiros, o cantor escondeu-se muitas vezes na sombra enquanto bebericava um copo de whisky.


A inconfundível voz de crooner de Jay-Jay Johanson fez-se ouvir em “Believe in Us”, “Far Away”, “She’s Mine But I’m Not Hers”, “Tomorrow”, “Milan, Madrid, Chicago, Paris”, “Dilemma”, “She Doesn’t Live Here Anymore”, “On The Other Side”, música que nasceu em Portugal, escrita durante um soundcheck de um concerto no nosso país, e “I Love Him So”. Esta última faixa nasceu da circunstância de o filho de Jay-Jay ter sido operado quando tinha apenas um ano de idade. Enquanto o filho estava deitado na mesa de operações, na sala de espera Jay-Jay escrevinhava furiosamente no bloco de notas as bases para esta canção. Johanson afirma que todas as suas composições partem de acontecimentos da sua vida – a sua maior fonte de inspiração é o seu diário.


O artista nórdico revelou-se um pouco repetitivo na forma como interpretou os temas, por vezes sugerindo alguma timidez, mas manteve sempre uma postura simpática, terminando os temas com um sonoro “Thank You”. Beneficiou de uma sala completamente esgotada e de um público entusiasta, a quem não foi preciso dizer duas vezes que o rapaz estava de volta à cidade, e que se encontrou em perfeita sintonia com o artista mostrando isso mesmo durante as pausas entre as canções e no final “obrigando” Jay-Jay Johanson a um encore, que arrancou com ele sozinho em palco, passando depois a estar acompanhado só pelo teclista e por fim com a totalidade do trio de volta no empolgante e intenso “Rocks In Pockets”, do álbum de 2007 “The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known”, que culminou com Jay-Jay e Erik Jansson nas teclas, num dueto frenético.

Quando tudo acabou, não faltaram high fives e abraços pois o sueco desceu do palco e veio cumprimentar e agradecer a todos aqueles que se encontravam na primeira fila e que o receberam de forma calorosa e simpática. Nós é que agradecemos, Mr. Johanson.

sábado, 7 de outubro de 2017

Leituras de Outono


- Jean-Paul Didierlaurent - O Leitor Do Comboio
- Kazuo Ishiguro - Quando Éramos Órfãos
- Ana Margarida de Carvalho - Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato
- Ildefonso Falcones - Os herdeiros Da Terra
- Stephen King - Sr. Mercedes

sábado, 16 de setembro de 2017

Philip Roth - Pastoral Americana


Este livro aborda sentimentos contraditórios sobre a América: o orgulho de ser americano e o ódio pelo que a América representa (decadência). A América como terra das oportunidades e como símbolo supremo do mal, uma existência em dois pólos antagónicos que Roth reproduz na perfeição.

O homem comum. Os seus sonhos normais. O desejo de ser feliz, de viver uma vida pacata e envelhecer junto daqueles que mais ama. Philip Roth não escreve sobre homens excepcionais, prefere expor as excepcionais vidas dos homens banais, as suas frustrações, medos e ridículos. Mas em “Pastoral Americana” Roth vai mais longe: constrói o paradigma do sonho americano – um belo atleta, Seymour Levov, louro (“Sueco”) abastado, objecto de uma adulação total, acrítica e idólatra, casado com uma ex-miss New Jersey, Dawn – apenas para o destruir. Uma destruição repentina e gratuita, como costumam ser os acontecimentos que mudam vidas.

O narrador Nathan Zuckerman que emerge na (curtíssima) primeira parte do livro esconde-se na segunda, deixa que a figura de Levov ocupe o palco, e com ele toda uma geração que entrou em colapso a partir dos anos 60. Porque também se fala disso. Da revolução sexual que se transformou em revolução de costumes, e dos valores que foram substituídos na passagem de geração. E do Viename, sempre o Vietname…

Os problemas da família perfeita de Seymour Levov, a quem “um dia a vida começou a rir-se dele e nunca mais parou”, começam com a gaguez da filha, Merry, que surge inexplicavelmente como uma premonição. Levov teme que aquele problema seja um reflexo de algo de errado que se passa com a sua filha, mas pouco consegue fazer para ajudá-la. Os seus sentimentos de culpa aumentam quando, num momento algo irracional, decide ceder aos pedidos da filha para a beijar na boca. Aquele instante é vivido por Levov como um incesto, um quebrar de regras que potencialmente terá aberto as portas à loucura futura.

Merry, que se considera “a mais feia filha jamais nascida de pais atraentes”, frustrada com a gaguez, por se sentir aquém das expectativas dos pais, à medida que vai crescendo começa a desenvolver uma obsessão por questões políticas, mais especificamente pela Guerra do Vietname. Esse sentimento transforma-se rapidamente num repúdio do estilo de vida americano, contra todo o modelo de vida capitalista, contra a pastoral burguesa. Em causa estava, por exemplo, a procura de mão-de-obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é um símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América actual. Levov assiste passivo à perda da sua filha, sem a conseguir controlar, temendo que o pior possa acontecer. E acontece.

Uma bomba explode perto da casa dos Levov matando uma pessoa. De uma idealista radical, Merry, para quem “a vida é apenas um curto período de tempo em que estamos vivos”, passa a criminosa procurada. A vida dos Levov é estilhaçada pela bomba, com o Sueco a passar dias e dias a tentar perceber o que correu mal. “Porquê? O que fiz eu para a minha filha se tornar numa assassina?” pergunta Levov, enquanto a sua mulher se afunda numa depressão e a filha se mantém em fuga. A incompreensão do sueco Levov perante os actos de Merry é um espelho da atitude da América em relação a si própria.



American Pastoral
(“Uma História Americana”), de 2016, é o primeiro filme realizado por Ewan McGregor, que partilha o protagonismo com Jennifer Connelly e Dakota Fanning. Compõem a a família Levov, que se desmorona quando a filha se une a grupos radicais nos Estados Unidos que protestam de forma violenta contra a Guerra do Vietname. Aqui, a transformação da sociedade americana nos anos 1960 carece de alguma força dramática presente no livro de mais de 400 páginas. No entanto, trata-se de um filme com alguma actualidade política, pois deparamo-nos com uma América de identidade dolorosamente estraçalhada, com as suas gerações separadas de modo radical. São temas e sinais com 50 anos, mas interiores ao nosso presente. Como curiosidade cá vai um erro que detectei no minuto 37 da película, digno de pertencer ao sempre interessante site moviemistakes.com, quando durante uma conversa entre Merry e o seu pai, numa mudança de plano, a capa de um LP (ao centro) passa inexplicavelmente a contra-capa e desaparece o disco que estava à sua frente…



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Cinema do Mundo

Eis mais 5 filmes imperdíveis que exploram a complexidade humana, provenientes de várias partes do mundo (mas não de Hollywood...):



En Man Som Heter Ove (Um Homem Chamado Ove), de Hannes Holm – Suécia (2015): este filme cómico e simultaneamente triste é baseado na obra de Fredrik Backman e foi uma agradável surpresa. Ove, um velho rezingão que nunca dá o braço a torcer e que tem que ter sempre a última palavra, parece ser o homem mais rabugento e amargurado do mundo, especialmente depois da perda da esposa, que ele adorava e que conheceu quando ela lia “O Mestre e a Margarida” de Bulgakov, numa viagem de comboio, e depois de ser despedido. Sem qualquer objectivo de vida planeia juntar-se à mulher mas vê-se obrigado a adiar o seu fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de situações provocadas pela vizinhança. No final acaba por ser acarinhado pelo grupo improvável de personagens que vai reunindo à sua volta (contrariado, claro) e por isso esta história fala-nos de amizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros. Não aconselhado a quem não possuir um Saab! (Ah e se possuir um Audi é favor não esquecer que tem 5 zeros: 4 à frente e um ao volante…).

Toni Erdmann, de Maren Ade – Roménia, Áustria, Alemanha, Suíça (2016): filme dramático com tons de comédia, sobre o sentido da vida, com uma história a centrar-se na relação entre um pai sexagenário e uma filha (Sandra Hüller com uma brilhante interpretação), ele professor de música e ela uma empresária a trabalhar numa multinacional em Bucareste. Após a morte do seu cão, o pai, Winfried, decide deslocar-se à Roménia mas o primeiro contacto com a filha foi desastroso. Assim decide inventar um estranho alter ego - Toni Erdmann - numa tentativa de se aproximar da filha e reatar laços familiares, acabando por provocar um confronto geracional ao lhe tentar demonstrar os verdadeiros valores da vida. Ao longo do filme, que ultrapassa as duas horas e meia (mas ouve-se “Greatest Love Of All” de Whitney Houston e assiste-se a uma naked party!) também é feito um retrato satírico da sociedade capitalista, cada vez menos humanista e mais desrespeitadora da identidade individual. O que é a felicidade?



Forushande (O Vendedor), de Asghar Farhadi – Irão, França (2016): um casal de actores (Ranaa e Emad) que são protagonistas de uma produção local da emblemática peça "A Morte de um Caixeiro Viajante", escrita por Arthur Miller em 1949 e premiada com o prémio Pulitzer, vê a sua vida íntima ser perturbada quando se mudam para uma casa que terá pertencido a uma prostituta. A história vai-se desenrolando lentamente no ambiente claustrofóbico de um bairro de Teerão e ganha intensidade dramática gradualmente, culminando numa situação de enorme tensão, onde o dilema vingança / perdão tem de ser enfrentado, isto após o membro feminino ter sido vítima de uma violação por parte de um estranho. Shahab Hosseini é soberbo a desempenhar o marido no ajuste de contas com o criminoso: alguém focado, assertivo, calmo, sem deixar escapatória ao outro que gere muito bem a sua surpresa, indignação e horror. A vingança é um prato que se serve frio e sem gritos, com um auto-controlo magistral. Adorei aquela tensão final, feita de muita inteligência emocional, quando os personagens são confrontados com escolhas difíceis, em que as mais profundas convicções são postas à prova. O jovem casal "envelheceu" com o perdão. A vida fez justiça.

Tanna, de Martin Butler e Bentley Dean – Austrália (2015): este filme foi gravado na ilha de Tanna, em Vanuatu, um pequeno país insular da Oceania e os seus actores são todos habitantes nativos da ilha sem qualquer experiência anterior e falam no filme a linguagem local, o idioma Nauvhal. A história é baseada num acontecimento real: o amor proibido entre Wawa e Dain (pertencentes à tribo Yakel) na década de 80. A narrativa desenvolve-se sob o ponto de vista de Selin, a irmã mais nova de Wawa, uma criança encantadora. Historicamente, na luta pela sobrevivência, a tribo Yakel travou lutas sangrentas com outra tribo, a Imedin e, na iminência de um novo conflito, Wawa, é prometida como noiva ao filho do líder da tribo Imedin para que houvesse paz. O problema é que ela está apaixonada por Dain, neto do líder da sua tribo (aqui é impossível não nos recordarmos de Romeu e Julieta!). Desesperados, os jovens apaixonados têm de decidir entre fugir e ser felizes juntos ou zelar pelo futuro da sua tribo. Esta escolha pareceu-me demasiado previsível…



I, Daniel Blake, de Ken Loach – Inglaterra, França, Bélgica (2016): este filme obriga-nos a reflectir sobre o mundo em que vivemos, que permitiu a ascensão de um modelo socialmente imoral e canibalizador da dignidade humana e a existência de um Estado que, indolentemente, se arrasta pela sua indiferença, ineficácia e desumanização. Daniel Blake (Dave Johns ) é um viúvo solitário sem filhos pertencente à classe operária de Newcastle. Tem 59 anos, mas ainda está completamente apto para trabalhar. Infelizmente para ele, logo após a morte da esposa, sofreu um ataque cardíaco que o impede de retomar o trabalho. Para usufruir de benefícios sociais tem de se dirigir ao equivalente inglês da nossa Segurança Social e mendigar a pensão de invalidez a que tem direito. Só que tudo funciona através de call-centers e de formulários online, uma espécie de processo Kafkiano da burocracia. E Daniel nunca tocou num computador… Pior, se não responder da forma que os seus interlocutores estão à espera, penalizam-no retirando parte do subsídio. Ninguém o ajuda, o tempo vai passando e ele desespera… Numa das estações desse calvário, Daniel apercebe-se duma família igualmente em dificuldades. Uma mulher com cerca de trinta anos, com dois filhos, não tem dinheiro nem condições para viver. A partir daquele momento, o carpinteiro desdobra-se. Por um lado, continua o seu martírio junto da Segurança Social, por outro, dedica-se a ajudar os membros desta família, reparando a casa onde sobrevivem, comprando-lhes alguma comida, acompanhando a mãe às filas de beneficência alimentar. Fá-lo sem outro interesse que não seja o de ajudar. Mas o desespero dela e a falta de paciência dele acabam por se impor de forma dramática… Em última análise este filme, que deveria ser obrigatório para qualquer político ou aspirante a político, acaba por explicar o Brexit, pois os problemas retratados oferecem uma justificação para que a população mais idosa do Reino Unido tenha tido um peso fundamental na escolha pela saída da União Europeia.

sábado, 26 de agosto de 2017

Vilar de Mouros, 24 de Agosto de 2017


Jesus & Mary Chain, The Mission, Primal Scream e Young Gods permitiram recuperar algumas das minhas melhores memórias musicais das décadas de 1980 e 1990. Bandas que marcaram uma era e uma geração, prolongando o estatuto de referência ao longo de mais de 30 anos. Apesar dos rostos mais enrugados e dos cabelos mais grisalhos dos intérpretes, há músicas que, mesmo tocadas mil e uma vezes, durante longos, longos anos, continuam a soar a novo.

Esta viagem no tempo começou com os The Veils, a quem foi conferida a missão de começar a aquecer o ambiente. O sol ainda não se tinha posto por completo e durante cerca de 50 minutos ouviram-se os melhores temas desta simpática banda londrina incluindo o maior sucesso da banda, “The Leavers Dance”, do seu álbum de estreia lançado em 2004, “The Runaway Found”.

De seguida, os suiços The Young Gods, liderados pelo extravagante Franz Treichler, entraram no seu túnel de rugosidade e aceleração e criaram uma onda sonora explosiva, com temas como “Skinflowers” e “Kissing The Sun”, afirmando todas as qualidades do seu projecto de rock industrial e avant-garde.



A paz regressou de seguida com as baladas dos ingleses The Mission, membros destacados do rock gótico, com um público já trajado a rigor. O vocalista Wayne Hussey, por viver em S. Paulo há vários anos, mostrou dominar a língua portuguesa e ter abandonado os tempos de negrume e introspecção (até ofereceu rosas ao público!). Proporcionaram um excelente concerto num formato “best of” onde não faltaram os temas “Severina”, “Wasteland”, “Deliverance”, “Butterfly On A Wheel”, “Tower Of Strength” e “Like a Child Again”.

Igualmente menos sorumbáticos e muitíssimo mais festivaleiros, com um espírito quase juvenil, os The Jesus & Mary Chain proporcionaram um episódio de nostalgia pura durante cerca de 90 minutos, incluindo “April Skies”, “Head On”, “Some Candy Talking” e “Happy When It Rains”.


E como foi tão bom (re)ver Bobby Gillespie a acompanhar, à bateria, os irmãos Reid na interpretação das três derradeiras músicas (“Just Like Honey”, “The Living” e “Never Understand”) de um concerto que fechou ao som das melhores e imortais canções do ainda tão jovial álbum “Psycho Candy” dado a conhecer em 1985.

Bobby Gillespie, liderou os Primal Scream num concerto propositadamente desenhado para deixar a multidão em êxtase, numa visita guiada aos seus melhores álbuns (só de "Screamadelica" de 1991 ouviram-se, por exemplo, “Come Together”, “Loaded” e “Moving On Up”). Que noite memorável...

segunda-feira, 17 de julho de 2017

domingo, 16 de julho de 2017

O Reinado Prossegue…


O melhor tenista de todos os tempos continua a fazer história. Apesar dos seus quase 36 anos anos, Roger Federer parece ser um atleta sobrenatural. Depois de na época passada ter sido eliminado nas meias-finais por Milos Raonic e praticamente ter terminado aí a sua época, poucos acreditariam que, em 2017, Federer voltaria a dominar o circuito e que poderá terminar o ano como número um mundial.

Este domingo dominou completamente a final de Wimbledon e conseguiu obter o título sem ter cedido qualquer set ao longo da quinzena. Impressionante!

A lista de recordes de Federer é enorme, já aqui falei dela, mas recordo os principais feitos deste atleta cujos gostos musicais passam por AC/DC, Metallica e Lenny Kravitz:

- 19 títulos do Grand Slam
- 29 finais do Grand Slam
- 42 meias-finais do Grand Slam
- 23 meias-finais seguidas no Grand Slam
- 50 quartos de final no Grand Slam
- 36 quartos de final seguidos no Grand Slam
- 321 encontros ganhos no Grand Slam
- 93 títulos na carreira
- 24 títulos seguidos em finais ATP
- 302 semanas como número um do ranking ATP
- 237 semanas seguidas como número um
- 65 encontros seguidos a ganhar em relva
- 0 sets perdidos em Wimbledon ‘2017 e Australia ’2017

Roger dixit:

"O segredo está em acreditar sempre em mim."

"Estar a cem por cento fisicamente é imprescindível."


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sons de Verão



- Emily Haines & The Soft Skeleton Fatal Gift
- AsgeirAfterglow
- ChromaticsShadow
- TrickyThe Only Way
- Ariel PinkAnother Weekend
- Lykke LiUnchained Melody
- PhotomartyrA Private Understanding
- Broken Social SceneHug Of Thunder
- The HorrorsMachine
- Courage My LoveAnimal Heart
- King Gizzard & The Lizard WizardThe Lord Of Lightning vs Balrog
- Moses SumneyDoomed
- Angus & Julia StoneSnow
- Manchester OrchestraThe Alien
- St. VicentNew York
- Kele OkerekeStreets Been Talkin'
- Beach HouseChariot
- Jen CloherRegional Echo
- RadioheadI Promise
- Arcade FireCreature Confort


domingo, 2 de julho de 2017

Leituras de Verão


- W.G. Sebald - Austerlitz
- Ramon Gener - Se Beethoven Pudesse Ouvir-me
- Ana Margarida de Carvalho - Que Importa A Fúria Do Mar
- Adrian Goldsworthy - António E Cleópatra
- Michael Farquhar - As Vidas Secretas Dos Czares
- Peter Mendelsund - O Que Vemos Quando Lemos

sábado, 24 de junho de 2017

3 Álbuns Deslumbrantes!

Para quem adora música é um enorme prazer descobrir discos que sabemos que nos vão acompanhar por muito tempo. Discos com canções bem desenhadas, vozes formosas e seguras e com universos próprios e bem esculpidos. Discos complexos mas limpos, cristalinos mas densos.

Editados em 2017, são segundos álbuns de vozes femininas que fazem lembrar, por exemplo, Angel Olsen, Lisa Germano, Gillian Welch, Laura Marling ou Joanna Newsom em que a intensidade dos temas desafia as influências óbvias.

São discos não aconselhados a quem ouve música a retalho na net e com o som comprimido, sem conhecimento do que foi sentido e pensado pelo artista.


Aldous Harding – Party

Esta neozelandesa, nascida Hannah Topp, em “Party” (editado pela 4AD e produzido por John Parish, colaborador de PJ Harvey) tem o dom de fazer a realidade parecer uma coisa muito frágil (“Blend”), por vezes penetrando numa escuridão convidativa e cativante (“The World Is Looking For You” e “Party”), invocando uma dor profunda (“Horizon”) e um vício (“I’m So Sorry”, recentemente apresentada de forma magistral no Later with… Jools Holland, da BBC 2), alternando o humor e as vozes sem esforço (“What If Birds Aren't Singing They're Screaming” e “Living The Classics”) e construindo assim uma obra surpreendente.




Julie Byrne – Not Even Happiness

Abençoada com uma voz límpida e profunda, esta norte-americana brilha sem espalhafato ao longo de 9 canções da mais bela e hipnotizante folk, criando momentos sublimes. Os arranjos orquestrais são cuidados, as letras falam de felicidade, mas também de desejo, luta, força, sabedoria, integridade, viagens (“Melting Grid”) e de solidão: “I was made for the green, made to be alone,” canta em “Follow My Voice”. A voz de Julie é de uma delicada entoação. Aconchega-se ao ouvido, cola-se à pele, transmite tranquilidade mesmo quando canta infortúnios. A imagem que fica é de uma mulher intransigente nas suas tentativas de criar uma vida significativa - “I crossed the country and I carried no key” (em “Sleepwalker”).




Nadia Reid – Preservation

Cá está outro disco que mais parece uma daquelas receitas que de tão simples se tornam irresistíveis. Arranjos simples e muito silêncio para deixar a voz respirar. Quase não há ingredientes adicionados para desviar a atenção da voz, das melodias e das palavras. A neozelandesa Nadia Reid apostou em canções de arrepiante personalidade (em “Reach My Destination” canta There were two little words that I used, one was ‘fuck’, the other was ‘you’) onde o protagonismo é dado claramente à sua voz e à sua guitarra. É música simples, como as melhores coisas na vida são. Discos destes fazem crer que este mundo merece ser vivido.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

11º F

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho.”

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego


Muita sorte e felicidade. Desejo que a alegria na vossa vida seja infinita e constante.

Acreditem na vossa força interior, vocês são capazes…

CCB

quarta-feira, 7 de junho de 2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Rufus Wainwright, Theatro Circo, 31 de Maio de 2017


Inserido no ciclo “Respira! – O piano como pulmão” promovido pelo Theatro Circo, Rufus Wainwright apresentou um concerto único nesta sala bracarense completamente esgotada. Sem formato banda, apenas alternando a utilização de um piano com uma guitarra acústica. Esperava um alinhamento baseado nos primeiros discos de estúdio, esquecendo as últimas incursões pela ópera, pelos sonetos de Shakespeare e por Judy Garland e foi isso mesmo que aconteceu.

Agnus Dei” (de Want Two) teve as honras de abertura do espectáculo, revisitando de seguida os 7 álbums de estúdio (com excepção do disco menos conseguido de 2010, All Days Are Nights: Songs for Lulu), ora cantando com uma guitarra na mão, ora se sentando no piano para apresentar o próximo tema. “This Love Affair”, “Out Of The Game”, “Grey Gardens”, “Jericho”, “In My Arms” (aqui enganou-se na letra o que levou à gargalhada geral e a um forte aplauso) sucederam-se num ambiente bastante intimista. Wainwright mostrou-se muito comunicativo com o público. Referiu-se por duas vezes à cidade de Braga: quando visitou "umas 5 igrejas" e quando se deslumbrou com o Bom Jesus. Tentou, com sucesso, a comédia quando contou a sua recente passagem pelos arredores de Barcelona e pelo momento em que recebeu uma massagem de um profissional que não dominava a língua inglesa e que lhe pediu para “inspire” e “expire” (inhale, exhale) e que também lhe perguntou “Do you like depression?”…


O artista emocionou-se quando apresentou uma cover de Lhasa de Sela (falecida em 2010), a magnífica “I’m Going In”. Houve ainda tempo para apresentar uma nova canção “The Sword Of Damacles” que “soon will be released”, contando previamente que foi inspirada por uma amiga francesa chamada Bernardette. Anunciou que irá apresentar a sua primeira ópera Prima Donna na próxima semana em Paris e que já está a preparar a próxima ópera baseada no imperador Adriano.

Sem grande surpresa as últimas quatro canções foram: “Cigarettes And Chocolate Milk”, “Going To A Town” (a mais ovacionada da noite), “Hallelujah” (original de Leonard Cohen) e, surpreendentemente, encerrou a noite com “Poses”, do disco com o mesmo nome que verdadeiramente celebrizou Wainwright como compositor (nesta última interpretação voltou a esquecer-se da letra – “it’s getting late”, justificou o homem). Agradeceu e elogiou o público bracarense: "What a discovery!".

Rufus Wainwright provou que o artista é um bom artista, mostrou uma das suas facetas mais fortes, a de cantautor sozinho ao piano ou à guitarra, longe das orquestrações pomposas que costumam marcar presença nas suas canções. E tão cedo não se apagará esta actuação nas mentes de quem a presenciou.

sábado, 22 de abril de 2017

Museu do Dinheiro (Lisboa)


Acabei de visitar o Museu do Dinheiro, na Baixa Pombalina. Após um minucioso controle electrónico, a entrada foi feita pelo imponente hall da antiga Igreja de São Julião, e iniciou-se de seguida uma viagem pela máquina do tempo…

Nove salas temáticas do Museu, propriedade do Banco de Portugal, com muita interacção multimédia, dão-nos a conhecer a origem do dinheiro, quem o fabrica e a relação que se foi estabelecendo ao longo dos tempos entre o Homem e o dinheiro. A lógica subjacente a este museu temático é: ver, tocar, experimentar e partilhar.


A visita guiada começa com o convite a tocar numa barra de ouro de mais de doze quilos e meio, que valerá, dependendo da cotação, meio milhão de euros, a manusear uma moeda virtual, a viajar num mapa, a trocar bens por dinheiro com um computador que simboliza o deus grego Hermes (deus do comércio e das trocas), a posar para que a nossa cara apareça numa nota, a utilizar o simulador de um poço de desejos e a deixar um depoimento sobre a relação que se tem com o dinheiro. Importante, foi também conhecer alguns dos objectos que eram usados antigamente nos bancos assim como máquinas, chapas de impressão, esboços e desenhos que estão na origem das moedas e notas.

Na cripta da antiga igreja foi-nos dado a conhecer um troço da Muralha de D. Dinis, classificada como Monumento Nacional (descoberta nas escavações arqueológicas realizadas em 2010), uma construção medieval que nos levou numa viagem, percorrendo mais de 1000 anos da história de Lisboa.


Também tivemos a oportunidade de apreciar uma exposição alusiva aos 500 anos do nascimento (1517-2017) do pintor, desenhador, arquitecto, ensaísta, idealista, Francisco D’Holanda, um homem ímpar na história da cultura portuguesa. Esta exposição propõe um olhar de síntese sobre a vida e a obra deste artista de relevo na cena renascentista nacional e internacional.

Dada a quantidade de informação que nos é fornecida, se desejarmos relembrar e partilhar nas redes sociais com os amigos esta incursão pela história do dinheiro, podemos chegar a casa e, com o bilhete de entrada no museu, recriar o percurso e tudo o que se fez no computador, ou seja, acabamos por terminar a visita na nossa própria casa. Enfim, uma excelente viagem pela nossa história…

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Queridas Mães, Queridos Filhos

Uma senhora falou na qualidade de mãe ofendida para dizer que era um exagero designar como destruição a razão pelo qual o seu filho e mais companheiros da vida airada tinham sido expulsos de um hotel do sul de Espanha. A indignada progenitora admitia que tinha havido «umas quantas coisas partidas», mas explicava que tudo se devia à exuberância natural da juventude em férias. Quando oiço este tipo de pais a falar, não consigo deixar de ter um sentimento de imensa solidariedade para com os professores. Terem de aturar isto…

quarta-feira, 22 de março de 2017

Sons da Primavera

"Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente à relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz...".

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'




- Ryan AdamsDo You Still Love Me?
- Laura MarlingNext Time
- TemplesStrange Or Be Forgotten
- Cigarettes After SexNothing’s Gonna Hurt You Baby
- The Flaming LipsThere Should Be Unicorns
- Lana Del ReyLove
- Father John MistyPure Comedy
- MIYNTCool
- Bishop BriggsWild Horses
- The MolochsYou And Me
- Anna Of The North Oslo
- AOE I'm Right This Time
- Majical CloudzDowntown
- GoldfrappOcean
- The Magnetic FieldsBe True To Your Bar
- Grandaddy A Lost Machine
- The Big MoonFormidable
- ElbowMagnificent (She Says)
- Cage The Elephant Cigarette Daydreams
- Communist DaughterKeep Moving



quinta-feira, 2 de março de 2017

Leituras de Março


- Alberto Manguel - A Biblioteca À Noite
- Charles Dickens - História Em Duas Cidades
- Geraldine Brooks - As Memórias Do Livro
- Margaret Atwood - O Coração É O Último A Morrer
- Philip K. Dick - O Homem Do Castelo Alto

domingo, 29 de janeiro de 2017

King Roger


O campeoníssimo suíço Roger Federer acabou de escrever uma nova página na sua lenda na história do ténis, ao vencer o seu quinto Open da Austrália, o seu 18º título do “Grand Slam”, ampliando ainda mais o recorde que já detinha. Era uma final de sonho, um clássico do ténis mundial, um confronto entre dois nomes maiores da modalidade e que, para os fãs, constituía um regresso ao passado embora para mim Federer seja claramente o melhor tenista de todos os tempos.

Depois de nas etapas anteriores vulgarizar 3 Top Ten da modalidade (Berdych, Nishikori e Wawrinka) hoje foi dia de mais Momentos Federer: alturas em que, ao ver o helvético a jogar, o queixo nos cai, os olhos nos saltam das órbitas e soltamos sons que fazer aparecer quem está nas redondezas para verificar se estamos bem. Claro que os momentos são mais intensos se tivermos jogado ténis tempo suficiente para compreender a impossibilidade daquilo que acabámos de o ver fazer.

Subtileza, inteligência, técnica, elegância. A direita de Federer é uma formidável chicotada fluida e a esquerda uma pancada com uma só mão capaz de aplicar uma bola seca, carregada de efeito ou cortada. O serviço possui uma velocidade de classe mundial e uma colocação e variedade que ninguém se aproxima sequer de igualar. O vólei, smash e o lob são exemplares. A capacidade de antecipar a jogada e a noção de posicionamento no campo são sobrenaturais e no jogo de pés é exímio. Desta forma, as proezas desportivas de Federer são extraordinárias. Os seus recordes na modalidade podem ser visualizados numa página da Wikipédia.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

As Minhas Melhores Leituras de 2016


1. Marlon James – Breve História De Sete Assassinatos
2. Carlos Ruiz Zafón – O Labírinto Dos Espíritos
3. Lucia Berlin – Manual Para Mulheres De Limpeza
4. Don DeLillo – Sudmundo
5. Júlia Navarro – História De Um Canalha
6. Donna Tartt – A História Secreta
7. Javier Marias – Assim Começa O Mal
8. Alice Munro – A Vista De Castle Rock
9. Roslund & Thunberg – O Pai
10. Zia Haider Rahman – À Luz Do Que Sabemos
11. Kim Gordon – A Miúda Da Banda
12. Bruce Springsteen – Born To Run

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Melhores do Ano 2016

Vivemos num tempo em que há cada vez menos artistas que são capazes de produzir um sentido que é apreensível por quase todos. Num tempo em que a cultura popular se encontra fragmentada e não produz efeitos sobre os comportamentos e a memória colectiva.

Ao nível cultural, vive-se cada vez mais em pequenos nichos que não se tocam entre si, mergulhados na imensidão do espaço digital, procurando, com ansiedade, a qualidade no meio de imensa quantidade. Com tamanha segmentação de estilos, gostos e subculturas, parece que caminhamos todos os dias para infinito.

Para as pessoas da minha geração, as mortes deste ano constituíram um forte abalo, senão mesmo a morte, da sua adolescência. 2016 foi um ano em que a morte pairou e vai deixar muitas saudades dos que viu partir: logo em Janeiro foi David Bowie, Prince em Abril, Leonard Cohen em Novembro e agora George Michael no dia de Natal. Claro que mais do que chorar a morte, devemos celebrar a vida mas…

Este ano, alguns dos discos que mais me impressionaram foram assombrados pela morte, como os álbuns de David Bowie e de Leonard Cohen, mas também de Nick Cave, cujo filho Arthur, de 15 anos, faleceu numa queda de um penhasco de 18 metros em Brighton, Inglaterra, ou do malogrado membro dos A Tribe Called Quest, Phife Dwag, que ainda participou na gravação do último disco e nos deixou aos 45 anos.

São discos com canções comoventes e dramáticas, mas ao mesmo tempo belas e esperançosas. No fundo, trata-se de ver tudo à volta a sucumbir, e mesmo assim, tentar dar algum sentido à vida, por muito difícil que seja, socorrendo-se sempre da sua arte.

Cá vai então a lista das minhas preferências musicais de 2016:

- Nick Cave & The Bad SeedsSkeleton Tree
- Elza SoaresA Mulher Do Fim Do Mundo
- David BowieBlackstar
- PJ HarveyThe Hope Six Demolition Project
- RadioheadA Moon Shaped Pool
- Leonard Cohen You Want It Darker
- Angel Olsen My Woman
- Kevin MorbySinging Saw
- Hope Sandoval & the Warm InventionsUntil The Hunter
- Iggy PopPost Pop Depression
- Heron Oblivion Heron Oblivion
- LambchopFlotus



Com uma menção honrosa destaco Anohni (“Hopelessness”), Savages (“Adore Life”), Cass McCombs (“Mangy Love”), Daughter (“Not To Disappear”), Warpaint (“Heads Up”), Car Seat Headrest (“Teens Of Denial”), Christine and the Queens (“Chaleur Humaine”), Michael Kiwanuka (“Love And Hate”), Tegan and Sara (“Love You To Death”) e Bon Iver (“22, A Million”).

Finalmente, guilty pleasures que também editaram no presente ano e que continuam a deliciar-me: The Kills (“Ash And Ice”), Suede (“Night Thoughts”), Tindersticks (“The Waiting Room”), James (“Girl At The End Of The World”), The Divine Comedy (“Foreverland”), Explosions In The Sky (“The Wilderness”) e Pixies (“Head Carrier”).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Yrsa Sigurdardóttir – O Silêncio do Mar


Esta nova história da aclamada série de thrillers com a advogada Thóra Gudmundsdóttir no papel de protagonista, foi baseada em factos verídicos de grandes embarcações que apareceram no destino desprovidas de vida como o caso do Mary Celeste, um iate de luxo construído em 1872.

Neste livro trata-se de um iate de luxo chamado Lady K que chega a Reiquejavique sem a família e a tripulação que nele seguiam a bordo desde Lisboa. Ægir, a sua mulher Lára e as filhas gémeas de quatro anos Arna e Bylgja (os nomes dos personagens são típicos do seu país de origem, a Islândia) estavam entre esses passageiros bem como três elementos que compunham a tripulação: Halldor, Loftur e o capitão Thráinn. Caberá a Thóra, uma advogada com uma secretária (Bella) que faz mais downloads ilegais do que mostrar trabalho, que após ser contratada pelos pais de Ægir, tentará descobrir o que terá ocorrido. Em caso de terem morrido durante a viagem, os pais de Ægir pretendem assegurar que o seguro de vida do seu filho seja pago pois os mesmos pretendem que a neta de dois anos (Sigga Dogg) que ficou em terra continue aos seus cuidados.

A autora consegue manipular a percepção do leitor pois a narrativa divide-se entre a actualidade, vivida na capital islandesa, que acompanha a vida familiar e profissional de Thóra e o relato de todos os esforços no sentido de descobrir o que se terá passado e a viagem de barco, onde o leitor é posto à prova para tentar descobrir se a razão para os corpos que vão sendo encontrados em arcas congeladoras e aqueles que são deitados borda fora são causa humana ou um fenómeno sobrenatural.

A parte técnica não é descurada e são apresentados inúmeros procedimentos e conceitos ligados à navegação em alto-mar, como os coletes de mergulho BCD (Bouyancy Control Device) ou os sonares, aparelhos de detecção por meio de som que permitem a localização de submarinos.


Também devo destacar uma interessante leitura do estado da economia vivida na Islândia. E foi essa instabilidade financeira que fez com que o Lady K tenha mudado de donos e Ægir, membro da comissão liquidatária de um banco falido, entre em cena depois de um dos membros da tripulação ter partido uma perna não podendo assim assegurar os serviços a bordo. A viagem que deveria ser agradável e uma extensão das férias da família de Ægir transforma-se num pesadelo para quem teve por destino fazer este malfadado percurso.

Yrsa Sigurdardóttir sabe contar uma história com a sua escrita sóbria, inteligente e perspicaz mas também profundamente emocional. A descoberta do mistério que encerra aqueles personagens decorre devagar e partilhamos do medo que os tripulantes sentem naquele navio, bem como a angústia dos que os procuram.

Este mistério sobre o mar, Lisboa, a família, a fama, negócios obscuros e, como sempre, o mal e a conspiração do ódio, acaba por ter uma explicação realista e bastante convincente (e nada previsível), apesar de inicialmente estarmos tentados a evocar uma explicação sobrenatural para os factos. O ambiente sombrio, a investigação profunda e um desfecho espectacular, conferem uma elevada experiência ao nível do suspense a este excelente thriller.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

8 Séries de Televisão

Por todo o mundo, a televisão está a reinventar-se. As séries televisivas de qualidade são consideradas um dos formatos narrativos mais interessantes da actualidade. As características principais destas séries são uma produção opulenta equiparável à cinematográfica, actores de primeira qualidade, enredos complexos e arcos narrativos que se desenvolvem ao longo de todos os episódios. As produções norte-americanas continuam a liderar nesta área. Actualmente, a Netflix já é líder destacada, conseguindo-o em apenas quatro anos no sector de produção de séries exclusivas. Apresento de seguida oito das séries de televisão que acompanhei nos dois últimos meses e que valeram bem a pena o tempo perdido (nunca ultrapassando dois a três dias por temporada).



1 - “The OA”, é precisamente uma das mais recentes séries da Netflix. Inicialmente parece que estamos perante uma nova “Stranger Things”, mas é bastante diferente. Trata-se de um drama com contornos paranormais. Composta por oito episódios, conta-nos a história de uma jovem cega que desaparece aos vinte anos e que reaparece sete anos depois. O seu nome é Prairie Johnson (Brit Marling, que eu já tinha adorado no filme “Another Earth”), conhecida pela sigla AO (“I’m the OA”), e a cegueira fazia parte de si quando desapareceu, mas já não faz. A visão restaurada é apenas uma das diferenças desta jovem misteriosa que nos vai enfeitiçar. Episódio a episódio, Prairie vai contando o que lhe aconteceu, e cada revelação é mais chocante e esquisita do que a anterior. Curioso também o pacto entre os dois protagonistas logo no primeiro episódio e a referência à sua origem: o magnífico Strangers On A Train, filme de 1951, realizado por Alfred Hitchcock.

2 - “Westworld”, combina ficção científica, drama, mistério e western! A criação é da HBO e cruza vários géneros com uma abordagem completamente nova da clonagem humana e das relações entre os seres humanos e a inteligência artificial. “Westworld” é a concretização da visão do Dr. Ford (Sir Anthony Hopkins), criador de tudo o que se vê no parque futurista que serve de cenário à série. Genericamente trata-se de um parque pensado para concretizar os sonhos dos mais afortunados, sem quaisquer limites. Matar, violar, torturar. Tudo está à disposição dos que entrarem neste mundo paralelo.

3 - “Black Mirror” renasceu em 2016 pela Netflix depois de duas temporadas (em 2011 e 2013, com apenas três episódios cada) desenvolvidas para o Channel 4 britânico. Logo na sua estreia, na temporada 1, primeiro episódio, The National Anthem, uma princesa inglesa é raptada e os raptores limitam-se a exigir que o primeiro ministro tenha relações sexuais com um porco! Este ano, a série regressou com a terceira temporada (6 episódios). Uma particularidade desta série é que em cada episódio há novas histórias independentes. Trata-se de ficção científica mas com muitas semelhanças com a realidade. Tudo parece (quase) normal e há apenas pequenos pormenores que fogem ao que todos conhecemos. Por vezes, até parece que a realidade já terá ultrapassado a ficção. A reflexão sobre o mundo moderno está presente, abrindo-nos os olhos para a influência da tecnologia nas nossas vidas e para o mundo assustador em que todos vivemos sem saber. A tecnologia transformou todos os aspectos da nossa vida e isso pode não ser positivo e são mesmo muitos os espelhos negros de “Black Mirror”. Para dar alguns exemplos, a série conta histórias como a de uma sociedade em que todas as pessoas são sujeitas a um sistema de ratings — em que basta a perda de uma estrela para que se perca a oportunidade de aceder a determinados serviços —, a de um jogo de realidade virtual que consegue interagir com as nossas memórias ou a de um militar cuja visão é trabalhada para que o inimigo seja visto como um monstro.

4 - “Queen Of The South” é uma série sobre narcotráfico protagonizada pela brasileira Alice Braga (sobrinha da actriz brasileira Sónia Braga) e pelo português Joaquim de Almeida (como Don Epifanio Vargas, líder do cartel Vargas e político corrupto). Enquanto não chega a terceira temporada da série Narcos da Netflix, o filão sobre o universo do narcotráfico, continua a ser explorado e tem mais um formato de ficção baseado na obra com o mesmo nome, que li recentemente, do jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, e conta a história de Teresa Mendoza, uma jovem que se vê transportada para o submundo dos cartéis de droga mexicanos.


5 - “Fleabag” é cómica, fofa, nonsense, triste e brutal. Apesar da curta duração dos seus episódios (cerca de 25 minutos) provoca um turbilhão de emoções. Fleabag (Phoebe Waller-Bridge) é uma jovem adulta que enfrenta problemas quase universais sob o ponto de vista feminino: problemas de relacionamento, conflitos familiares, frustração sexual e profissional. Uma mulher moderna que vive em Londres, a tentar curar uma ferida enquanto recusa ajuda daqueles à sua volta, mantendo a sua intimidade o mais reservada possível, mas que está constantemente em interacção com o espectador, olhando-o directamente, com comentários à parte das respectivas cenas. Por vezes, fez-me recordar Californication e mesmo Secret Diary of a Call Girl da Belle de Jour Billie Piper. Um manual de instruções para compreender a mulher que se diz moderna, não recomendado para ver em família…



6 - “The Young Pope”, é outra série hilariante onde podemos ver um papa a fumar desenfreadamente, a beber Cola Light ou a despertar com um iPhone. No início da série, Jude Law é Lenny Belardo, o futuro Papa Pio XIII (ficcional) e Diane Keaton é a Irmã Maria, que o ajudou a criar desde tenra idade num orfanato. Estamos em 1998 e será ele a tomar as rédeas do Vaticano. É um Papa jovem, muito mais jovem do que os seus antecessores, e os cardeais esperam controlá-lo a partir de dentro, fazendo dele um fantoche público enquanto continuam a reinar nos bastidores. Mas não é isto que acontece. O novo líder da Santa Sé já conseguiu o que queria, chegar ao poder, e agora vai revolucionar a Igreja como a conhecemos. O realizador italiano Paolo Sorrentino (que dirigiu o belíssimo La Grande Bellezza, em 2013) pegou na personalidade do actual Papa, Francisco, e virou-a do avesso para construir um sacerdote diferente de todos os que já conhecemos.

7 - “Medici: Masters Of Florence”, com carimbo da Netflix, dá a conhecer a dinastia Medici, a partir do século XV. O principal protagonista chama-se Cosimo e herdou o Banco dos Medici, após o seu criador, o seu pai Giovanni (Dustin Hoffman), ter sido misteriosamente envenenado em 1429. A partir de flashbacks de há 20 anos atrás, conhecemos a Florença da época e a relação entre Giovanni e os seus dois filhos, Cosimo e Lorenzo e acompanhamos a criação do primeiro grande banco europeu.

8 - “The Crown”, outra série da Netflix que retrata de forma exemplar os primeiros anos de reinado de Isabel II. A história começa em 1947, ainda no reinado do seu pai Jorge VI, quando este descobre e mantém em segredo que tem uma doença terminal. A primeira temporada termina no final da primeira década de reinado de Isabel II. Durante este período temos a possibilidade de rever algumas das datas mais importantes da sua vida e somos tentados a parar a visualização dos episódios para confirmar e investigar alguns factos na internet. Os desempenhos são notáveis, desde Clare Foy (como rainha Isabel II) a John Lithgow (como Sir Winston Churchill).





domingo, 25 de dezembro de 2016

Hello, My Son


Hello, my son
Welcome to earth
You may not be my last
But you'll always be my first
Wish I'd done this ten years ago
But how could I know
How could I know
That the answer was so easy
I've been told you measure a man
By how much he loves
When I hold you
I treasure each moment I spend
On earth, under heave above
Grandfather always said God's a fisherman
And now I know the reason why

And if some times daddy has to go away
Please don't think it means I don't love you
Oh, how I wish I could be there everyday
Cause when I'm gone it makes me so sad and blue
And holding you is the greatest love I've ever known
When I get home it breaks my heart
Seeing how much you've grown all on your own

Hearing you cry makes me cry
It made me cry
Hearing me cry
A thousand miles away
Every cry
(greatest love I've ever known)
(ever known)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Sons de Inverno



- Hope Sandoval ft. Kurt VileLet Me Get There
- WarpaintNew Song
- Kevin MorbyI Have Been to the Mountain
- MitskiYour Best American Girl
- The 1975Somebody Else
- PJ HarveyThe Wheel
- Hamilton Leithauser + RostamA 1000 Times
- PorchesBe Apart
- Bat for LashesSunday Love
- The Last Shadow PuppetsEverything You've Come To Expect
- WhitneyNo Woman
- Rag‘N’BoneHuman
- Jenny Hval Conceptual Romance
- Car Seat HeadrestFill in the Blank
- Bon Iver22 (OVER S∞∞N)
- SavagesAdore
- A Tribe Called Quest We The People....
- Rae Sremmurd ft. Gucci ManeBlack Beatles
- Frank OceanIvy
- RadioheadDaydreaming

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Cinema do Mundo

Os últimos filmes que vi não seguem a fórmula comercial de Hollywood, não têm a preocupação de agradar ao público em geral pois apelam a uma estética alternativa, por vezes abusando do bizarro, de sexo ou violência, com personagens estranhos e argumentos bastante originais:



Elle, de Paul Verhoeven – França, Alemanha, Bélgica (2016): este filme vive claramente do desempenho da actriz principal, Isabelle Hupert, por muito que se reconheça a força idiossincrática do realizador de “Basic Instinct” e representa uma personagem em martírio ou em punição, com disponibilidade para o sofrimento (já vista anteriormente em “La Pianiste” filme de 2001 de Michael Haneke mas muito diferente do excelente filme do ano seguinte “8 Femmes”). A sua personagem, gestora de uma empresa de videojogos, aproxima-se surpreendentemente de uma humilhação masoquista num ambiente pouco convencional: tem um pai preso (que se suicida quando sabe que ela pretende visitá-lo); a mãe anda metida com um rapazola e a sua saúde vai-se deteriorando; o filho está prestes a dar-lhe um neto mas de raça negra; ela própria encontra-se divorciada e com uma vida íntima atribulada que inclui masturbação e figuras natalícias e envolvimento com o marido da melhor amiga. Para complicar ainda mais, é assaltada e violada na sua própria casa mas tem uma estranha reacção… Hupert consegue uma singular e quase paradoxal mescla de intensidade e apatia, quando não mesmo abandono, visível num rosto que é capaz de ter uma expressão fulminante com um mínimo de recursos fisionómicos, a jogar às escondidas psicológicas com o espectador. Brilhante!

Les Innocents, de Anne Fontaine – Polónia, França (2016): este filme passa-se num convento logo após o fim da II Guerra Mundial, é inspirado na história real vivida por uma jovem médica da Cruz Vermelha Francesa, Mathilde Beaulieu (a encantadora Lou de Laâge) que é chamada por uma freira de um convento de beneditinas onde uma rapariga está a dar à luz. Pensa tratar-se de uma jovem da vila que lá foi acolhida, mas acaba por lhe ser revelado que várias das irmãs foram violadas por soldados soviéticos, ficaram grávidas e não irão abortar. As freiras pedem-lhe encarecidamente, ajuda e sigilo, perdidas entre o pecado, a culpa, a sua fé e a atitude de encobrimento da Madre Superior. Matilde é comunista, filha de comunistas e ateia, e assim confronta-se com o mundo da fé, da reclusão, da devoção total e do perdão que é o das freiras aumentando a complexidade emocional, ética, psicológica e espiritual da situação das protagonistas. A virtude deste filme, interpretado e realizado sempre por mulheres, e que também me fez recordar o filme polaco “Ida”, de 2013, realizado por Paweł Pawlikowski, é a de levar o espectador a uma reflexão profunda sobre os limites da religião.

Miss Violence
, de Alexandros Avranas – Grécia (2013): estranhamente esta película só estreou nos cinemas portugueses em Novembro de 2016. Trata-se de mais um filme perturbador, gerador de emoções e de enorme violência, apesar de se tratar de violência mais sugerida do que visível (a este nível recordou-me outro filme grego também memorável de 2009: “Kynodontas”, de Yorgos Lanthimos). Nos primeiros trinta ou quarenta minutos somos confrontados com cenas de aparente normalidade: uma simplicíssima festa de anos, em que só irmãos, mãe e avós de uma menina angelical de 11 anos estão presentes até que essa mesma menina de rosto apático esgueira-se pela varanda da sala, atira-se e morre estatelada no chão da rua! Ao acompanhar o luto da família e o seu quotidiano, e à medida que vamos adivinhando o que está a acontecer com aquela família, é impossível não ficarmos revoltados e indignados e às tantas parece que levamos com um murro no estômago. Claro que isto só acontecerá a quem conseguir ver o filme até ao fim…



Saul Fia, de László Nemes – Hungria (2015): mais uma história terrível ainda com a II Guerra Mundial como pano de fundo, que acompanha constantemente o dia-a-dia de um Sonderkommando de um campo de concentração, ou seja, de um prisioneiro (Saul) condenado pelos alemães a cumprir a horrível tarefa de ajudar os deportados escolhidos para morrer a despirem-se e a entrarem nas câmaras de gás, depois levar todos os cadáveres, corpos misturados que se tinham debatido, para os fornos crematórios. A proposta estética aplicada com rigor pelo realizador baseia-se quase sempre no rosto de Saul, insensível e impiedoso, ou naquilo que ele está a ver, ou seja, os horrores da guerra são apresentados sob o olhar de quem a vivencia, dia após dia, o que é ainda impulsionado pelo formato do ecrã reduzido, que amplia a sensação de aprisionamento naquela realidade. Trata-se de uma experimentação visual que nos induz toda uma série de sentimentos negativos através do simples poder da sugestão, sem imagens explicitas de carnificina. A primeira vez em que ouvi o termo associado a estes “comandos especiais”, que também eram exterminados ao fim de algum tempo de trabalho, foi com a leitura de “Sonderkommando” de Shlomo Venezia e mais tarde “A Zona de Interesse” de Martin Amis e também naquele que provavelmente será o documentário mais completo sobre o holocausto, realizado por Claude Lanzmann em 2005, “Shoah”, com uma duração superior a 9 horas.


El Clan, de Pablo Trapero – Argentina, Espanha (2015): baseia-se na história verídica da família Puccio que, no começo da década de 1980, sequestrava, escondia na própria casa e, após pedir elevados resgates, matava os seus reféns em Buenos Aires. O patriarca e mentor dos crimes desta família aparentemente pacata, Arquímedes Puccio (representado por Guillermo Francella, já nosso conhecido do excelente filme argentino de 2009, “El Secreto de Sus Ojos”), era um agente do serviço de inteligência da mais recente ditadura argentina (1976 — 1983), que se aproveitava da experiência adquirida nas sombras do poder e da influência que os militares ainda gozavam nos primeiros tempos de democracia para praticar determinados crimes. Apesar de no filme a conclusão óbvia é que o crime não compensa e o sonho de uma vida luxuosa terminar para toda a família, Arquímedes nunca chega a confessar os seus crimes.

Under Sandet, de Martin Zandvliet – Dinamarca, Alemanha (2015): mais uma visão diferente da II Guerra Mundial, que nos conta a história de um grupo de jovens prisioneiros de guerra nazis que com as próprias mãos foram forçados a retirar 2 milhões de minas terrestres das praias dinamarquesas. Trata-se de olhar sobre a crueldade e o ódio pós-guerra a todos os alemães, que atingiu o seu auge após a morte de Hitler e com as revelações dos campos de extermínio. Logo na primeira cena, um soldado alemão que carrega uma bandeira dinamarquesa é violentamente atacado. É um filme simples, realista, triste, com excelentes protagonistas e um cenário que permite obter uma fotografia impecável.



Julieta, de Pedro Almodóvar – Espanha (2016): apesar de Almodóvar já ter feito melhor, gostei bastante deste seu último filme. Tem um óptimo guião, uma história bem contada (a partir de três contos de “Fugas”, antologia da Nobel da Literatura Alice Munro), emocionalmente fortíssimo sem ser lamechas, direcção de actores e interpretação impecáveis e uma estética visual e musical superiores. Julieta é uma mulher de meia-idade que está prestes a mudar-se de Madrid para Portugal, para acompanhar o seu namorado Lorenzo mas tem um encontro fortuito na rua com Beatriz, uma antiga amiga de sua filha Antía, o que a leva a desistir daquela mudança. Resolve então voltar para o antigo prédio em que vivia, também em Madrid, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. Aquilo que menos gostei foi do final do filme pois deixou-me uma sensação de ter ficado incompleto.

Califórnia, de Marina Person – Brasil (2015): filme sobre adolescentes e as suas dores de crescimento, bem patentes logo nos primeiros segundos do filme. Decorre no Brasil no início dos anos 1980 e conta a história de Estela, uma adolescente de 14 anos que vive os conflitos típicos da idade, de identidade, amizade e amor (é vista a ler “Sexus” de Henry Miller) e que idolatra o seu tio Carlos, jornalista musical que vive nos Estados Unidos, mas também seu conselheiro e mentor. Por isso faz um acordo com os seus pais: em vez da fazerem uma festa de aniversário pelos seus 15 anos, quer fazer uma viagem aos Estados Unidos. Mas os sonhos dela caem por terra quando Carlos, doente e debilitado, opta por voltar para o Brasil… O filme é um autêntico hino aos anos 80 e a toda a sua identidade cultural: a MTV começa a transmitir videoclips 24 horas por dia; no mural do quarto de Estela há posters dos Beatles e de David Bowie (que ela idolatra) e um cartaz do filme “Blood Simple” de 1984 dos irmãos Coen; não faltam os gravadores de cassetes da época e as discotecas com bolas de espelhos; numa visita a uma loja de discos ouve-se, por exemplo, The Cure, New Order, The Smiths e ao longo do filme Joy Division, Siouxsie & The Banshees, Cocteau Twins e os brasileiros Kid Abelha. O tio Carlos trouxe-lhe dos Estados Unidos uma t-shirt do Bowie e um álbum dos Echo & The Bunnymen, “Ocean Rain” (recordo-me que quando este disco saiu vinha acompanhado da frase “o melhor álbum de sempre”) e conta-lhe pormenores de uma entrevista que fez a Michael Stipe (dos R.E.M.). Para reforçar o sentimento nostálgico do filme, também aqui a personagem principal tem um amigo que lhe grava cassetes, imita o penteado e o eyeliner de Robert Smith e até lhe empresta “O Estrangeiro” de Albert Camus (livro que inspirou a canção “Killing An Arab” dos The Cure). Enfim, um filme essencialmente para revivalistas!


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Elza Soares – “A Mulher do Fim do Mundo”

Acabei de descobrir um disco fantástico, editado o ano passado no Brasil, mas que só agora teve lançamento mundial. Cantado em português do Brasil, o que normalmente seria suficiente para não lhe dar grandes hipóteses nas minhas audições (há poucas excepções, como os Pato Fu, de Fernanda Takai, ou os Mutantes, de Rita Lee).

Elza Soares terá (porque não o admite) 79 anos e desde a década de 1950 foi um dos maiores nomes do samba. No passado fez inúmeras gravações mas nunca lançou qualquer álbum de originais. Este é o primeiro! E o que se ouve não é propriamente samba, é algo difícil de catalogar como género mas irresistível aos ouvidos. Samba rock, samba jazz, enfim, o samba é o coração que bate nesta música híbrida, intemporal, cheia de electricidade rock, pulsão electrónica e tensão pós-punk.

A Mulher do Fim do Mundo” é um álbum de luta e de vida, onde o racismo, a discriminação (“Benedita”, “Pra Fuder”) e a violência (“Maria da Vila Matilde”), são temas dominantes com que esta diva da “bossa negra” nos encanta com a sua voz rouca, cheia e quente, arrancada à terra e arrancada do fundo da alma:

Eu quero cantar até o fim

Me deixem cantar até o fim

Eu vou cantar até o fim

Eu sou mulher do fim do mundo

Eu vou cantar, me deixem cantar até o fim
(em "Mulher do Fim do Mundo").

domingo, 20 de novembro de 2016

25 Provérbios da Era Digital

1. A pressa é inimiga da conexão.

2. Amigos, amigos, passwords à parte.

3. Antes só do que em chats da treta.

4. A arquivo dado não se olha o formato.

5. Diz-me que fórum frequentas dir-te-ei quem és.

6. Para bom entendedor uma pass basta.

7. Não adianta chorar sobre arquivo apagado.

8. Em zangas de e-namorados não se mete o rato.

9. Hacker que ladra não morde.

10. Mais vale um arquivo no disco do computador do que dois em download.

11. Melhor prevenir do que formatar.

12. O barato sai caro. E lento.

13. Quando a esmola é demais, o santo desconfia que tem um vírus em anexo.

14. Quem muito clica seus males multiplica.

15. Quem com vírus infecta, com vírus será infectado.

16. Quem envia o que quer, recebe o que não quer.

17. Quem nunca errou que aperte a primeira tecla.

18. Quem semeia e-mails colhe spams.

19. Quem tem dedo vai a Roma.com

20. Vão-se os arquivos, ficam os backups.

21. Diz-me que computador tens e dir-te-ei quem és.

22. Uma impressora disse para outra: “Essa folha é tua ou é impressão minha?”.

23. Aluno de informática não copia, faz backup.

24. O problema do computador é sempre o USB (User Super Burro).

25. Na informática nada se perde, nada se cria... Tudo se copia... E depois cola-se.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Hineni, Hineni - I'm Ready, My Lord


A voz grave do poeta, músico e escritor canadiano Leonard Cohen calou-se no dia de ontem, dia em que, aos 82 anos, “morreu tranquilamente na sua casa em Los Angeles” de acordo com o comunicado oficial. Dono de um timbre melancólico inconfundível, Cohen inspirou gerações com canções eternas. Temas como Hallelujah, Suzanne, The Partisan, First We Take Manhattan, Dance Me To The End Of Love, I'm Your Man ou So Long Marianne (Marianne, a musa de Cohen com quem este viveu na década de 60 na ilha grega de Hydra e que faleceu no passado mês de Julho), viverão para sempre nas páginas de ouro da Música.

O seu último disco editado há menos de um mês, “You Want It Darker” (14º álbum de estúdio) é um disco intimista, em que a voz, tão grave como sempre, mas envelhecida, cansada, amarfanhada, canta, ou quase diz, canções sobre a mortalidade, a despedida, a resignação.

I'm leaving the table, I'm out of the game...


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan - Prémio Nobel da Literatura 2016

My Last twitter:

The Times They Are A Changin. Bob Dylan wins Nobel Prize for literature. Great to see the Nobel committee do the right & creative thing. I'm still euphoric...


O cânone foi derrotado, se bem que já o tivesse sido no ano passado com a atribuição do Nobel à jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich, pois pela primeira vez distingue-se um autor por um corpo de textos (letras de canções) que não foram criadas para serem publicadas em livro. Entusiasmado, só posso louvar a Academia Sueca não só pela sua coragem e pela sua resistência às pressões das editoras mas sobretudo por alargar as fronteiras do literário. E se Bob Dylan continuar igual a si próprio até apostaria que não vai aparecer na cerimónia de entrega do prémio, em Estocolmo, entregue pelas mãos do rei da Suécia…

Like A Rolling Stone - clique e veja o fantástico video interactivo do tema que a revista Rolling Stone em 2006 considerou como a melhor canção de todos os tempos.

domingo, 9 de outubro de 2016

Leituras de Outono


- Lucia BerlinManual Para Mulheres De Limpeza
- Haruki MurakamiSono
- Michael CunninghamUma Casa No Fim Do Mundo
- Elena FerranteA Amiga Genial

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sons de Outono



- Bon IverHolocene
- Yeasayer I Am Chemistry
- HindsAnd I Will Send Your Flowers Back
- ChairliftCrying In Public
- PJ HarveyNear The Memorials To Vietnam And Lincoln
- The Dandy WarholsYou Are Killing Me
- Golden FableThrough The Night
- ANOHNIDrone Bomb Me
- Gia KokaCome Pick Me Up
- Massive Attack (ft. Young Fathers)Voodoo In My Blood
- Zach SchimpfWhat’s It Like, Tomorrow?
- Rosie LoweWoman
- Mystery Jets1985
- ANIMA!Silver Screen
- Everything EverythingNo Reptiles
- DaughterNo Care
- BeckWow
- PixiesTenement Song
- Lana Del ReyI Want You Boy (Free Fall)
- Michael KiwanukaCold Little Heart

domingo, 2 de outubro de 2016

Nick Cave & The Bad Seeds – The Skeleton Tree



O novo disco de Nick Cave, figurará com toda a certeza na lista que elaborar dos melhores do ano. E muito provavelmente em primeiro lugar. O seu tom é sombrio e elegíaco e a perda e a morte são temas recorrentes, devido à morte de um dos seus filhos gémeos, em Julho de 2015, então com 15 anos, resultando num conjunto de canções íntimas e pessoais, bem diferentes de temas épicos como “Jubilee Street” ou “Higgs Boson Blues” do seu anterior registo Push The Sky Away de 2013. Também existe a evocação a uma mulher, talvez uma companheira recente mas o principal objectivo de Nick Cave é ultrapassar aquela perda (“You fell from the sky, crash landed in a field”, em “Jesus Alone”), bem patente em todos os 8 temas do álbum. A sua voz revela claramente um trauma inconsolável (“I call out, right across the sea, but the echo comes back empty”, em “Skeleton Tree” ou “Nothing really matters when the world you love is gone” em “I Need You”, a canção mais emotiva do disco) e nem um abraço parece ajudar (“Don’t touch me,” canta ele em “Girl In Amber”).

Trata-se de um processo de criatividade activada pela dor que aspira a servir de terapia ao seu autor:

- With my voice, I am calling you (“Jesus Alone”);

- The phone, it rings, it rings and you won't stay (“Girl In Amber”);

- All the things we love, we love, we love, we lose (“Anthrocene”);

- Soon the children will be rising, this is not for our eyes (“Distant Skies”).

Ccontinuo ansioso por ver o filme documentário relativo à criação deste disco: “One More Time With Feeling”, que para já apenas foi exibido num único dia em Portugal, em 8 de Setembro passado, mas que regressará aos cinemas em Dezembro próximo.